sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Odontologia Equina

                             

            O CUIDADO PRECOCE É ESSENCIAL PARA A SAÚDE DO CAVALO ATLETA






ODONTOLOGIA eqüina moderna visa o equilíbrio das diferentes partes da boca com o objetivo de se restabelecer a função mastigatória plena.
A dentição do cavalo moderno é complexa, e evoluiu por milhões de anos para permitir a preensão e mastigação efetivas dos materiais herbáceos fibrosos incluídos na sua dieta. O ser humano domesticou estes animais, mudou os seus hábitos alimentares conforme sua própria conveniência, e os utiliza para trabalho e lazer, além disso, os cavalos de performance são domados e iniciam a vida atlética muito jovens. 
No mundo inteiro ela está sendo cada vez mais difundida, através de seminários e palestras que veterinários pioneiros ministram com o objetivo de alertar os colegas sobre a vital importância da odontologia na saúde dos eqüinos, assim como suas conseqüencias no desempenho atlético dos mesmos. As dificuldades na prática do exame oral associadas ao treinamento deficiente resultam, na maioria das vezes, em diagnóstico no mínimo incompleto.



Por quê é importante tratar dos dentes dos cavalos?


O principal motivo é a saúde, e depois o desempenho atlético, que acaba sendo conseqüência do tratamento. (Mastigação adequada, conseguida através dos tratamentos odontológicos são essenciais). O cavalo tratado, com boa oclusão (fechamento da boca), livre de feridas ou infecções na boca obviamente mastigará com eficiência, triturando o alimento oferecido adequadamente, aproveitando ao máximo os nutrientes, mantendo-se em boa condição física, com menores probabilidades da ocorrência de cólicas, e trabalhando melhor com o ginete, pois está mais confortável com a embocadura e tende a colaborar plenamente com os comandos na boca.
Na verdade, imagine você sem tratamento odontológico. A sua qualidade de vida seria a mesma? A diferença é que os cavalos não reclamam! 
Tratamentos odontológicos são ao mesmo tempo preventivos e curativos. Explico:
Quando está-se tratando da boca de um cavalo, eliminamos os problemas encontrados e prevenimos outros de ocorrerem. Por exemplo, quando eliminamos pontas dentárias, ou qualquer formação que possa provocar feridas nas bochechas ou na língua, ao mesmo tempo, evitamos que a dor causada pelas mesmas provoquem distúrbios no ciclo mastigatório. 




Quando devem ser realizados os exames odontológicos?



O primeiro exame deve ser realizado logo no nascimento, pois desordens como braquignatismo, prognatismo e fendas palatinas podem ser prontamente observadas e tratadas de acordo. Em potros de até 5 anos, o ideal é um exame a cada 6 meses, pois não é raro encontrar casos de dentes decíduos persistentes, fragmentos que devem ser extraídos, e oclusão anormal causada pela erupção desequilibrada dos dentes. Dificilmente se encontram problemas graves de oclusão em potros novos, mas observa-se formações pontiagudas, e deformações nas arcadas dos dentes molares e incisivos com frequência em animais com mais de 6 anos, em diversos graus. Essa observação demonstra que o cuidado precoce é essencial.
Em cavalos adultos, o exame deve ser repetido anualmente, se não houver indicação para exames mais regulares. 
(O exame da cavidade oral é facilmente realizado através do uso de um espéculo, uma lanterna e uma seringa de 400 ml para a limpeza da cavidade oral. O exame deve incluir tanto a visualização como a palpação das estruturas da boca, mas a avaliação da oclusão só será precisa com a utilização de sedativos ou tranqüilizantes.
A utilização do espéculo, possibilita um exame mais preciso e seguro da cavidade oral. Na maior parte das vezes, a sedação não é necessária para a palpação e visualização.)


Afinal, quantos dentes têm os cavalos?



O cavalo adulto normal pode possuir de 36 a 44 dentes. Segundo um dos especialistas americanos em odontologia eqüina, os cavalos Puro Sangue Lusitano e de Pura Raça Espanhola podem apresentar 1 molar a mais por fileira. Normalmente o que encontramos no exame oral são 12 dentes incisivos, que são os da frente, facilmente observados, 12 pré-molares, 12 molares, 4 dentes caninos nos machos, e de 0 a 4 dentes do lobo, que na verdade são os primeiros pré-molares, os primeiros pré-molares (PM1). As fêmeas podem apresentar caninos, porém estes são pequenos, rudimentares, e mais freqüentemente encontrados na mandíbula.




ESTRUTURA E FUNÇÃO DO DENTE



Os eqüinos possuem dentes classificados como hipsodontes, o que significa coroa longa. O cavalo possui dentes incisivos e molares com uma raiz relativamente pequena e coroa grande, sendo que apenas parte da mesma se encontra exposta. A porção interna da coroa é chamada de coroa de reserva. Esses dentes erupcionam durante toda a vida para compensar o desgaste causado pelos alimentos contidos na sua dieta. A coroa não cresce continuamente como nos roedores, apenas erupciona constantemente.
As arcadas dentárias maxilares são ligeiramente curvas, ao contrário das mandibulares que são retas. Isso causa uma sobreposição de dentes onde parte dos dentes molares superiores e parte dos dentes inferiores ficam fora de contato, o que explica a formação de pontas dentárias na face oclusal lingual dos dentes inferiores e na face oclusal vestibular dos dentes superiores. 


MASTIGAÇÃO



Os dentes incisivos com suas superfícies oclusais (mesa dentária) planas e mordida em torquês têm como função a preensão dos alimentos. Os molares, com superfícies irregulares trituram os alimentos através da excursão lateral da mandíbula, movimento permitido pelas articulações têmporomandibulares do cavalo e pela angulação de cerca de 15° das arcadas maxilares e mandibulares.
O alimento é empurrado para as partes mais caudais da boca através das cristas palatinas desenhadas para direcionar o alimento para os dentes molares, e de movimentos da língua. Durante o processo da mastigação, o alimento é pressionado entre as arcadas e a mandíbula se movimenta vertical e lateralmente. Há diversos grupos musculares envolvidos na mastigação dos eqüinos, e problemas nestes podem acarretar graves distúrbios na mastigação.
Os dentes caninos e os dentes do lobo não possuem função efetiva na mastigação.


Quais são os SINAIS CLÍNICOS?



Mastigação deficiente, derruba alimento, mastiga com movimentos predominantemente verticais (abre e fecha boca): lacerações ou ulcerações na cavidade bucal; Disfagia; Descarga nasal; Condição física pobre; Impactação ou diarréias crônicas; Halitose; Aumentos de volume na face; Problemas na performance (reação à embocadura, falta de apoio, balançar a cabeça e outros); Fístulas faciais; Obstrução nasal; Hemorragia bucal




Quais são os PROBLEMAS MAIS COMUNS?



O que observei, nestes 7 anos tratando cavalos Lusitanos, é que os problemas mais comuns são pontas dentárias, rampas, dentes do lobo e feridas (úlceras) na cavidade bucal. Os dentes do lobo são conhecidos de veterinários e ginetes, pois podem interferir no trabalho. Os maiores dentes do lobo que já encontrei foram em cavalos Lusitanos. Há inclusive algumas observações interessantes, por exemplo, cavalos de linhagem Veiga parecem apresentar dentes do lobo mais freqüentemente que cavalos de linhagem Andrade. Há uma implicação genética evidente nesta raça, e as diferentes características das linhagens podem se estender até para a área odontológica.
De modo geral, dentre as diferentes raças, o que se nota mais comumente são:


Formações pontiagudas, como pontas de esmalte, bicos ou ganchos (pontas geralmente encontradas nas superfícies oclusais dos dentes P2 e M3.
Lacerações nas bochechas causadas por pontas dentárias.
Maloclusão dos dentes molares, como rampas, degraus, e arcadas onduladas.
Maloclusão dos dentes incisivos, como curvatura ventral, dorsal e mordedura em diagonal, e estão geralmente associadas à má oclusão dos molares.
Dentes do lobo, que podem interferir com a embocadura.
Cálculos.
Anormalidades no erupção dos dentes, que podem causar posteriores deformidades nas arcadas, falha no deslocamento de dentes decíduos e retenção de fragmentos dos mesmos.
Faturas, quando observadas, encontram-se geralmente nos dentes incisivos, e nos M1, e M2.


ACHADOS MENOS COMUNS



-Anodontia
-Dentes supranumerários
-Braquignatismo
-Prognatismo
-Doença Periodontal
-Cáries
-Lacerações na língua
-Tumores
-Campylorrhinus Lateralis (wry nose)
-Disgenesia dentária
-Processos degenerativos da ATM




Como são os TRATAMENTOS ODONTOLÓGICOS realizados?


Os tratamentos podem variar muito, dependendo do caso clínico, indo desde o grosamento das pontas de esmalte, extrações dentárias e colocação de aparelho móvel (plano horizontal) ou fixo (procedimento cirúrgico com fios de aço, acrílico e placas de metal) para correção da oclusão. Como rotina, o grosamento das pontas de esmalte, o ajuste da oclusão e a extração do P1 e de dentes decíduos são os tratamentos mais comuns realizados, não sendo incomum, porém, a observação de fraturas nos dentes, com poucos casos de envolvimento de doença periodontal e abscessos periapicais.
Como os dentes dos eqüinos estão em constante erupção, a manutenção dos tratamentos que envolvem desordens de desgaste e ou erupção deve ser realizada conforme a gravidade da situação, a cada 6 meses ou anualmente.
Os exames complementares mais comumente requisitados são os radiológicos, e os endoscópicos, principalmente nos casos de sinusites, fraturas severas e disgenesias e agenesias dentárias.


ASPECTOS IMPORTANTES



Há basicamente dois aspectos importantes sobre a prática da Odontologia e Ortodontia em Eqüinios. 

1) Saúde: Distúrbios da alimentação podem estar diretamente relacionados com a qualidade dos movimentos mastigatórios. Animais que têm dificuldade em ganhar peso, apresentam desconforto abdominal periódico, diarréia crônica, se alimentam de forma considerada anormal e necessitam constantemente de suplementos vitamínicos devem ser examinados.

2) Performance: Animais que reagem à embocadura, que têm dificuldade em flexionar o pescoço ou que apresentam dificuldade em certas manobras sob comando de rédeas devem ser examinados. 
Muitas vezes o tratamento é relativamente simples, e apresenta resultado imediato, porém há necessidade de material e treinamento veterinário adequados.



Carla Michel Omura,
M. V. CRMV SP 8224.

Formada em 1994, trabalhou durante um ano em meio nos EUA com odontologia eqüina, está no Brasil trabalhando nesta área e com cavalos Lusitanos desde 1995. Atende no Brasil em vários estados expandindo seu trabalho pela América do Sul, iniciando pela Venezuela em 2001.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Febre Maculosa



Febre Maculosa


INTRODUÇÃO


Apesar de conhecida há muito tempo, a Febre Maculosa vem atualmente despertando preocupação de profissionais da saúde e de entidades governamentais responsáveis pela vigilância e controle epidemiológicos em diversos estados da federação, notadamente em São Paulo. O crescente número de casos suspeitos e os óbitos confirmados pela doença fazem com que seja dado um alerta para que toda a comunidade tome providências, principalmente no que se refere a medidas educativas de prevenção.
O envolvimento do Médico Veterinário nessa questão relaciona-se ao fato de que a Febre Maculosa é transmitida dos animais para o homem, constituindo uma importante zoonose e, neste contexto, é preciso conhecer amplamente os aspectos biológicos dos vetores, o modo como a doença é transmitida, seus hospedeiros, os aspectos clínicos e laboratoriais para diagnosticá-la, e baseado nessas informações, adequar um programa de profilaxia junto a propriedades e proprietários de animais que tenham contato com carrapatos, principalmente em áreas onde já foram identificados e comprovados casos da doença. Este texto tem como objetivo levar ao profissional Médico Veterinário uma revisão a respeito dos principais aspectos relacionados a doença com o intuito de atualizar e alertar sobre o seu importante papel no controle da Febre Maculosa.




EPIDEMIOLOGIA
A Febre Maculosa é uma doença antiga, tendo seu primeiro relato em indíviduos da região montanhosa do noroeste dos Estados Unidos em 1899, por esta razão é chamada naquele país de Febre das Montanhas Rochosas. Na década de 30 é identificada em alguns locais do Canadá, México, Panamá e Colômbia. No Brasil o primeiro caso foi reconhecido em 1929, em São Paulo e desde então, já foi registrada em outros estados brasileiros como Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo e, mais recentemente, Santa Catarina.
A doença também é chamada de Febre Maculosa Brasileira, Febre Maculosa de São Paulo, Febre do Carrapato ou Febre Negra. Segundo a Superintendência de Controle de Endemias de São Paulo (SUCEN), até a década de 80 foram diagnosticados casos isolados em municípios vizinhos da cidade de São Paulo, como Mogi das Cruzes, Diadema, Santo André e Pedreiras. A partir de então novos casos foram detectados em Jaguariúna, Campinas, Valinhos, Líndóia e Paulínia. Em junho deste ano causou a morte de três pessoas na cidade de Mauá e, apenas no mês de setembro, foram registrados 80 casos suspeitos de Febre Maculosa em Piracicaba. A doença foi declarada de notificação compulsória nestas regiões, seguindo as orientações do Ministério da Saúde. 
Em Minas Gerais, tem sido comum a ocorrência de casos isolados em áreas colonizadas, idependente de contato com a mata, ou foco natural da doença, além da forma epidêmica com elevado número de óbitos. Essa ocorrência, sob a forma de epidemia, pode ser verificada, em 1981, em Grão Mogol, Vale do Jequitinhonha; em 1984 no Vale do Mucuri, nos municípios de Ouro Verde de Minas e Bertópolis; em 1989, em Virginópolis - Vale do Rio Doce; em 1992, na periferia de Caratinga. Os casos isolados ou de ocorrência em pequeno número, mas de alta letalidade, têm ocorrido em todo o Estado, com exceção do sul de Minas e Triângulo Mineiro, com predominância nos Vales do Mucuri, Jequitinhonha e Rio Doce e na periferia de grandes cidades como Juiz de Fora e Belo Horizonte, em 1997.
A Secretaria de Vigilância do Ministério da Saúde foi informada da ocorrência de três casos com evolução para óbito, de pacientes residentes no Rio de Janeiro, que estiveram na região serrana do Estado, na área rural do município de Petrópolis. O diagnóstico realizado no laboratório de referência da FIOCRUZ RJ, confirmou tratar-se de febre maculosa. 


ETIOLOGIA, VETORES E RESERVATÓRIOS
A Febre Maculosa constitui uma zoonose e se não for diagnosticada e tratada a tempo pode levar o homem a óbito. É causada por uma bactéria denominada Rickettsia rickettsii, um microorganismo gram-negativo intracelular obrigatório, que tem como vetores os carrapatos infectados do gênero Amblyomma, como o Amblyomma striatum, comum em cães, Amblyomma brasiliensis e Amblyomma cooperi, mas principalmente o da espécie Amblyomma cajennense, que são conhecidos por "carrapato estrela", "carrapato do cavalo" ou "rodoleiro"; suas larvas são conhecidas por "carrapatinhos" ou "micuins" e as formas mais jovens (ninfas) por "vermelhinhos".


Os Amblyommas, pertencentes a família Ixodidae, são carrapatos trioxenos ou seja, precisam de três hospedeiros para completar a fase parasitária, sendo, um para larva, um para a ninfa e outro para o estágio adulto. De modo geral, os estágios de larva e ninfa são os que apresentam menor especificidade parasitária, podendo parasitar diferentes espécies, desde aves até mamíferos de diferentes tamanhos. Já o estágio adulto apresenta maior especificidade parasitária, restrita a algumas espécies. Tal comportamento faz dos carrapatos trioxenos os de maior importância na transmissão de patógenos na natureza, pois o fato de parasitarem espécies diferentes facilita o intercâmbio de agentes causadores de doenças entre os hospedeiros. 
Dada a menor especificidade parasitária das larvas e ninfas, estes são os principais estágios que parasitam os seres humanos. O exemplo  clássico é o da espécie Amblyomma. cajennense. Larvas e ninfas desta espécie podem parasitar várias espécies de animais, inclusive humanos. O estágio adulto é mais específico de grandes mamíferos tais como eqüinos, antas e capivaras e, eventualmente, quando as populações desse carrapato se apresentam muito numerosas, é que irá parasitar outros mamíferos inclusive humanos. No caso dos carrapatos trioxenos, tanto as larvas, como as ninfas e adultos são estágios de resistência no ambiente, já que terão uma sobrevida dependente das reservas energéticas adquiridas do estágio anterior do ciclo da vida. O adulto é o estágio que por mais tempo consegue sobreviver sem que encontre um hospedeiro, seguido pela ninfa, e por último, a larva, que apresenta a menor sobrevida sob jejum. De modo geral, os adultos de Amblyomma spp podem sobreviver em jejum, sob condições naturais, por 12 a 24 meses, a ninfa por até 12  meses e larvas 6 meses. 



CARACTERÍSTICAS BIOLÓGICAS DO Amblyomma cajennense 
As fêmeas depois de fecundadas e ingurgitadas (teleóginas) desprendem-se do hospedeiro e caem na vegetação do solo, onde cerca de 12 dias depois, inicia-se o período de oviposição. Neste período uma única fêmea ovipõe em torno de 5 mil ovos, ao longo de 25 dias, finalizando com a sua morte. Após o período de incubação (30 dias em média à temperatura de 25°C) ocorre a eclosão dos ovos e o nascimento das larvas (hexápodes) com aproximadamente 95% de larvas viáveis. As larvas sobem e descem a vegetação, conforme variações ambientais, até o encontro do primeiro hospedeiro, onde realizam o repasto de linfa, sangue e/ ou tecidos digeridos, por 3 a 6 dias. Em seguida desprendem-se do hospedeiro e buscam abrigo no solo onde, num período de 18 a 26 dias, ocorre a ecdise transformando-se no estágio seguinte (ninfa). As ninfas (octópodes) fixam-se em um novo hospedeiro e durante 5 a 7 dias ingurgitam-se de sangue. Assim como no estágio larval, as ninfas encontram abrigo no solo e sofrem nova ecdise após 23 a 25 dias, transformando-se nos carrapatos adultos que dentro de 7 dias já estão aptos para parasitar novos hospedeiros. Uma vez no hospedeiro os carrapatos machos e fêmeas fazem o repasto tissular e sanguíneo, ocorrendo o acasalamento. A fêmea fertilizada inicia o ingurgita-mento que termina em 10 dias aproximadamente. A partir de então a fêmea solta-se da pele do hospedeiro, vai ao solo e dá início a uma nova geração. O Amblyomma cajennense completa uma geração por ano, mostrando os três estágios parasitários marcadamente distribuídos ao longo do ano, sendo larvas de março a julho, ninfas de julho a novembro e adultos de novembro a março. 
O Amblyomma cajennense é responsável pela manutenção da Ricketisa rickettsii na natureza, pois ocorre transmissão transovariana e transestadial. Esta característica biológica permite ao carrapato permanecer infectado durante toda a sua vida e também por muitas gerações após uma infecção primária. Portanto além de vetores os carrapatos são os principais reservatórios da Rickettsia, uma vez que todas as fases evolutivas, no ambiente, são capazes de permanecer infectadas durante meses ou anos à espera do hospedeiro, garantindo um foco endêmico prolongado.


HOSPEDEIROS
Esses carrapatos são obrigatoriamente hematófagos e têm como hospedeiros mamíferos silvestres (foco natural da doença) como capivaras, gambás, coelhos, cotias; aves silvestres como seriemas; aves e animais domésticos como cavalos, bois, carneiros, porcos e cães. Existe a hipótese de transmissão peridomiciar onde o cão seria o principal carreador de carrapatos para o ambiente doméstico. Uma vez infectados, os animais apresentam uma baixa concentração de Rickettsias circulantes, sendo reservatórios transitórios, adquirindo resistência duradoura após o período parasitêmico que é variável entre alguns dias a poucas semanas. Assim, os animais que foram contaminados mas que não possuam mais carrapatos aderidos na pele ou no seu ambiente poderão não propagar a doença. Dessa forma, a doença não depende desses animais para sua manutenção, já que o Amblyomma cajennense é responsável pela manutenção da Ricketisa rickettsii na natureza. 




TRANSMISSÃO 
A transmissão da bactéria ao homem ocorre pela picada do carrapato infectado durante o final de sua alimentação, após ficar aderido na pele por um período de 4 a 10 horas. Acredita-se que a transmissão da Ricketisa, pela forma adulta do carrapato seja menos comum pois, devido ao aspecto doloroso de sua picada, as pessoas o retiram mais rapidamente do corpo, não havendo a permanência pelo período citado, o que normalmente não ocorre com as formas jovens que, pela picada menos dolorosa, muitas vezes nem mesmo são percebidas. Pode ocorrer também a infecção por meio de lesões na pele ocasionadas concomitante ao esmagamento do carrapato ao tentar retirá-lo. Esta doença não se transmite diretamente de uma pessoa para outra, a não ser com a transfusão de sangue proveniente de uma pessoa contaminada pela bactéria, não sendo necessário isolar o paciente.




PATOGENIA
Após a picada do carrapato infectado, a Rickettsia rickettsii ganha a corrente circulatória e invade as células endoteliais dos pequenos vasos, onde causam aumento da permeabilidade vascular e necrose, através de produtos de seu metabolismo. 


SINTOMATOLOGIA
Os primeiros sintomas da Febre Maculosa levam de dois a 14 dias para se manifestar em No homem, em geral, ocorrem forte mal-estar, febre alta, dor de cabeça, congestão das conjuntivas e lesões na pele que surgem por volta do 3° e 5° dia, como manchas avermelhadas (máculas) nos pulsos, tornozelos, palmas das mãos e sola dos pés. Pode progredir para lesões no sistema nervoso, causando confusão mental, letargia, fotofobia, surdez transitória e convulsões; lesões em rins com insuficiência pré-renal por hipovolemia, sendo que em alguns casos há necrose tubular aguda e acometimento pulmonar caracterizando-se por pneumonia intersticial, infiltrado alveolar e derrame pleural. 
Dentre os animais domésticos apenas o cão pode apresentar alguma susceptibilidade à doença, mas dificilmente é detectada clinicamente. Quando os sinais clínicos estão presentes eles são relacionados a distúrbios circulatórios como petéqueas e sufusões em mucosas oculares, nasais, orais e genitais, edema e epistaxes; diarréia sanguinolenta ou não; vômitos, aumento dos linfonodos, esplenomegalia, dores musculares e articulares, bem como complicações cardiovasculares, neurológicas e renais.
O problema é que, como a febre maculosa tem sintomas inespecíficos e costuma ser confundida com outras doenças, o diagnóstico correto e, conseqüentemente, o tratamento adequado, muitas vezes demoram a ser implementados. Se a doença não for devidamente tratada, a letalidade pode chegar a 80%.


DIAGNÓSTICO
O diagnóstico laboratorial pode ser realizado por meio de cultura de sangue ou de tecidos visando o isolamento e identificação do agente, ou por teste sorológico através da técnica de imunofluorescência indireta para detecção de anticorpos. Como os anticorpos começam a aumenta a partir da segunda semana de doença, a amostra de sangue para sorologia deverá ser colhida após o 7° dia. Quando a sorologia de duas amostras colhidas com intervalo médio de 10 a 14 dias mostrar soroconversão de 4 vezes o título ou se a amostra única mostrar títulos de IgG maior ou igual a 64 com qualquer título de IgM então a doença está confirmada. Pode também ser feita a identificação do DNA da Rickettsia no sangue infectado pela técnica de PCR (Reação em Cadeia de Polimerase). Segundo o Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Estado da Saúde, em São Paulo até o momento somente o Instituto Adolfo Lutz Central realiza os exames de imunofluorescência indireta e isolamento e, no Rio de Janeiro, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).


DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL
Diversas doenças devem ser incluídas no diagnóstico diferencial da Febre Maculosa em humanos, entre elas a leptospirose, sarampo, febre tifóide, dengue, febre amarela, meningococcemia, doença de Lyme, sepsis por gram-negativos, mononucleose infecciosa, sífilis secundária, reações a drogas e enterovirose.
Nos cães que apresentarem sinais clínicos, embora raramente e de forma inespecífica, podem ter diagnóstico diferencial relacionado a Ehrlichiose canina.


TRATAMENTO
Depois do início dos sinais clínicos, o tratamento deve ser iniciado dentro de no máximo uma semana, caso contrário, o risco de óbito é elevado pois os medicamentos poderão não apresentar o efeito desejado. O tratamento consiste no uso de antibióticos como cloranfenicol ou tetraciclinas, lembrando que as tetraciclinas não podem ser usadas em menores de 8 anos e gestantes. Além dos antimicrobianos, são indispensáveis os cuidados médicos e de enfermagem dirigidos para as possíveis complicações, sobretudo as renais, cardíacas, pulmonares e neurológicas. 


PROFILAXIA E MEDIDAS DE CONTROLE
Em função das constantes mudanças no meio ambiente, o aumento de animais silvestres nas cidades, as alterações no manejo de espécies domésticas (bovinos e eqüinos) e o aumento da oferta de alimentos, ocorre também a elevação da população do Amblyomma cajennense proliferando de maneira mais rápida o agente da Febre Maculosa. Dessa maneira deve-se dar importância às medidas profiláticas que consistem em evitar contato com carrapatos. Evitar caminhadas em áreas conhecidamente infestadas por carrapatos no meio rural e silvestre. Quando necessário transitar nessas áreas, é fundamental sempre vestir calças compridas e botas, vistoriando o corpo em busca de carrapatos em intervalos de 3 horas, pois quanto mais rápido for retirado, menos serão os riscos de contrair a doença. Não esmagar os carrapatos com as unhas a fim de evitar microlesões na pele por onde a bactéria pode penetrar. O controle de carrapatos pode ser feito por técnicas não químicas ou de manejo como manter gramas e arbustos aparados rentes ao solo permitindo maior penetração dos raios solares e de calor nas pastagens já que o Amblyomma cajennense é sensível à insolação e à falta de umidade. Nos pastos onde são criados bovinos e eqüinos é sempre possível inviabilizar a fonte de alimento dos carrapatos utilizando-se de rotação de pastagem, que além de propiciar um controle dos carrapatos, melhora as condições do pasto e controla também outros tipos de parasitas. O controle químico dos carrapatos nos animais também é de grande valia desde que feito de forma programada e com assistência profissional. É oportuno salientar que um dos problemas graves no controle do Amblyoma cajennense é a sua capacidade elevada de desenvolver resistência aos carrapaticidas que são comumente disponibilizados no mercado. Como exemplo desse problema, pode-se mencionar os resultados de carrapatogramas de diversas amostras de Amblyomma cajennense colhidas em eqüinos levados à internação na EV / UFMG, que evidenciaram resistência absoluta a todas as bases de carrapaticidas até então disponíveis para o controle de carrapatos em eqüinos. 


CONSIDERAÇÕES FINAIS 
A atual ocorrência crescente de Febre Maculosa acarretando morbidade e óbitos em humanos no Brasil configura uma realidade consideravelmente preocupante no cenário da saúde pública. Por isso, deve ser combatida através de estratégias implementadas por equipes de profissionais da saúde em que o Médico Veterinário deve ter função destacada, na medida que se trata de uma zoonose importante, envolvendo diversos hospedeiros constituídos por vários animais silvestres ou domésticos além de um vetor representado cuja a biologia e controle são, por prerrogativa profissional e necessidade, mais estudados por esse profissional da saúde.


REFERÊNCIAS
1.Centro de Controle de Zoonoses do Estado de São Paulo; 
2.Centro de Vigilância Epidemiológica - Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, Informe técnico Febre Maculosa Brasileira, setembro de 2002.
3.SUCEN - Superintendência de Controle de Epidemias de São Paulo, www.sucen.sp.gov.br/doencas/f_maculosa/texto_febre_maculosa_pro.htm, elaborado por Adriana Maria L. VIeira, Celso Eduardo de Souza, Marcelo Bahia Labruna, Renata Caporalle Mayo, Savina Silvana A. L. de Souza, Vera Lucia F. de Camargo Neves, Virgília Luna Castor de Lima. 
4.Corrêa, W.M, Corrêa, C.N.M., Enfermidades Infecciosas dos Mamíferos Domésticos; 2ª Edição, 1992.
5.Márcio Antônio Moreira Galvão, FEBRE MACULOSA, Departamento de Nutrição Clínica e Social, Escola de Nutrição - Universidade Federal de Ouro Preto, www.ufop.br/pesquisa/revista/maculosa.htm.



                                                Texto revisado por: Dr. Geraldo Eleno Silveira Alves 

                                                                            Dr. Luis Renato Oseliero

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

A Origem do Cavalo Lusitano (Parte1)


Os cavalos retornariam ao seu lugar de origem muito tempo mais tarde, como instrumento de denominação dos povos da Península Ibérica no continente americano. Cristóvão Colombo, o descobridor, os introduziu na ilha de São Domingos em 1493. Espalharam-se primeiro pelas regiões que deram origem a Porto Rico e Jamaica, na América Central; desceram depois em direção à América do Sul, pelos territórios que mais tarde formariam o Peru, Colômbia, Equador, Venezuela, Chile e Bolívia. No México, chegaram transportados pelas tropas de Hernán Cortez, em 1519. Estes tomaram o rumo da costa oeste dos Estados Unidos, onde mais tarde dariam origem aos célebres mustangs norte-americanos.

Quatro décadas mais tarde, no extremo sul do continente, o espanhol Don Pedro de Mendoza logo fundaria Buenos Aires, mas na luta contra os índios perdeu exatos 76 cavalos. Em liberdade, voltaram a seu estado selvagem e primitivo, reproduzindo-se de forma espontânea. Algumas décadas depois, multiplicavam-se em extensas manadas que se espalharam dos pampas argentinos aos campos da Província Oriental, povoando as regiões remotas onde se formou o estado do Rio Grande do Sul. Começava a ser delineada a história do cavalo no Brasil.

"O cavalo do sol é um garanhão amarelo,
Um garanhão azul, um garanhão negro;
 O cavalo do sol veio até nós."

Os ancestrais de todas as raças brasileiras eram exatamente belos e velozes. Pertenciam todos a raça Andaluzia, originária da própria Península Ibérica, capaz de produzir um animal que Aristóteles, ainda em 384 antes de Cristo, chamou de "filho do vento". Cabeça pequena, orelhas também pequenas e bem postas, olhos grandes e doces, pescoço altivo, crina e cauda abundantes, o Andaluz foi reconhecido até pelos franceses como o mais famoso, o mais nobre e gracioso, o mais valente e mais digno de ser montado por um rei. Sua origem remonta sua própria formação dos continentes europeus e africanos, quando um cataclismo geológico abriu o estreito de Gibraltar, separando fauna e flora da mesma espécie e homens da mesma raça. 

De um lado ficaram os Íberos, de estirpe Berber e Amascirga nômades, alguns oriundos também do Himalaia; do outro lado, os povos árabes. Ambos cultivaram cavalos de poucas e sutis diferenças. O Equus Cabalus Asiaticus, com suas seis lombares na coluna vertebral, deu origem ao cavalo árabe, enquanto o Equus Cavalus Africanus, com uma lombar a menos, iria gerar o cavalo bérbere e, por conseguinte, o Andaluz. A Guerra Santa empreendia pelos árabes no início do século VIII revelou-se extremamente positiva para a raça. O criador Enio Monte afirma que, durante os oitocentos anos de denominação na Península Ibérica (então chamada pelos invasores de Al Andaluz), "emires e califas chegaram a ser magníficas criações de cavalos na região de Andaluzia, estudando cruzamentos e selecionando escrupulosamente os reprodutores; legaram à posteridade uma das melhores raças de cavalo que se teve notícias e que influenciou praticamente todas as raças existentes na época: a raça Andaluza". Portanto sangue nobre corre nas veias das matrizes dos cavalos brasileiros, do sertanejo ao crioulo. 

Em 1546, enquanto Jesuítas portugueses e espanhóis capturavam nos campos os primeiros baguais do tropel de Mendoza (bagual: expressão gaúcha para designar o cavalo que se tornou selvagem), chegaram a Santa Catarina 20 dos 46 cavalos trazidos pelo colonizador Don Álvaro Nunes, conhecido como "Cabeça de Vaca", que conseguiram sobreviver ao acidentes da longa viagem. O cruzamento destes baguais com os animais de Don Álvaro Nunes originou um cavalo resistente e rústico, de crinas grossas e pescoço mediano, dorso curto e reto, pernas elásticas e cascos sólidos, que tornou o companheiro inseparável do homem dos pampas, tanto do lado argentino como do brasileiro --- o cavalo Crioulo. Foi esta nova raça que uniu os povos do rio Prata em torno do ideal comum da criação. Foi ela que serviu aos primeiros índios que entenderam a importância do cavalo como arma de guerra e dominação, os embaias-guaicurus. 

Em 1795, o rebanho dos índios cavaleiros era calculado pelos portugueses em 8 mil animais, e os domínios dos guaicurus, com sua diversas ramificações, se estendia de Assunção a Cuiabá.
Guerreiros célebres pela audácia e coragem, eram temidos pelos brancos e pelos outros índios. Tornaram-se imbatíveis com a ajuda do Crioulo.

Criado livre no campo, sem abrigo ou trato especial, o cavalo Crioulo tornou-se extremamente sadio e resistente a doenças impostas pela natureza. Com dois exemplares argentinos da raça, "Mancha" e "Galo", o suíço A.F Tschifferly desafiou a distância que separa Buenos Aires de Washington e, durante dois anos e meio, venceu 16 mil quilômetros de florestas e montanhas andinas de mais de 5 mil metros de altitude para chegar à capital americana com seus dois cavalos em bom estado. O feito de Tschifferly incluiu o Crioulo entre as raças mais fortes do mundo. 

A história de formação política e econômica do Rio Grande do Sul se fez na companhia destes animais. Sem o seu "pingo", o gaúcho dos pampas não é um homem completo, nem mesmo na sua forma de se comunicar: estão registradas no sul milhares de expressões populares que envolvem este companheiro de todas as horas. "Arma, mulher e cavalo, nada de emprestar", diz a sabedoria gaúcha. "Cria perto do olhar o cavalo do teu andar". 

Pesquisado por Ismael Gonçalves da Silva    

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Importância do manejo dos cascos em equídeos


Toda ciência que se dedica ao sistema de sustentação e locomoção é denominada podologia. Já a biopodologia trata-se de uma ciência semelhante, mas que se direciona a uma visão biológica, levando em conta a integração dos diversos sistemas orgânicos, onde interagem continuamente oferecendo ao animal condições favoráveis ao seu ambiente. A anatomia e a funcionalidade dos membros dos equinos formam um conjunto harmônico essencial de cada estrutura. O estojo córneo ou úngula dos equídeos, chamado comumente de casco, é uma estrutura com funcionalidade complexa correspondendo a unha do homem e que reveste a extremidade digital do membro locomotor. É dividida em três partes, sendo elas parede, sola e cunha.
Os cascos são a base da proteção, sustentação e propulsão dos equídeos e também sede várias enfermidades e por isso, necessita de manutenção adequada, dessa forma, é importante conhecer a morfologia de cada espécie para orientar corretamente o casqueamento periódico; onde deve ser realizado no tempo correto, para proporcionar o ajustamento ideal dos mesmos, oferecendo maior conforto e melhor aprumo ao animal, além do ferrageamento dos cascos, preservando a integridade de suas estruturas quando esta trabalhando.
O pé ou dígito do equino é equivalente ao dedo médio humano, constituído de três ossos conhecidos como primeira, segunda e terceira falanges. O casco envolve a terceira falange, o osso navicular faz parte da segunda falange, sendo uma estrutura especializada, projetada para resistir ao desgaste, suportar o peso do animal e absorver o impacto, reduzindo assim o surgimento de injúrias no aparelho locomotor. A irrigação sanguínea do casco é feita pela artéria digital palmar, oriunda da bifurcação da artéria palmar medial. A manutenção adequada desse fluxo é determinante para a saúde dos cascos.
O casco é hidrófilo, ou seja, absorve e perde liquido através da sua parede ou muralha que mesmo possuindo uma camada de verniz para sua proteção, auxilia nessa regulação. Essa serve de apoio para o animal, por isso deve ter largura suficiente para suportar o peso do equídeo e uma altura aceitável para que a sola seja preservada e não faça contato direto com o chão. A ranilha possui uma função muito importante, onde atua como elemento amortecedor do impacto e auxiliar na irrigação sanguínea para o interior dos cascos. Quando há alterações nas barras o impacto é absorvido pela ranilha ao invés de serem transmitidos para a muralha (parede) afetando assim diretamente os sistemas ósseos e articulares do membro.
Com o passar do tempo os equídeos foram se adaptando ao ambiente em que eram obrigados a viver sendo ele modificado em decorrer de seu desenvolvimento, pois, seus ancestrais não se moviam tão rápido e se perdiam da manada sendo vitimas fáceis para predadores, ocasionando assim uma maior adaptação desses animais iniciando assim o ato de galopar onde se locomoviam com mais agilidade e eficiência.
Resultando em consequências como maior desgaste dos cascos e lesões para o aparelho locomotor.
Os cascos tem variações quanto a sua morfologia entre as espécies, os equídeos diferem dos asininos e os muares apresentam morfologia intermediária entre duas espécies. Observamos também diferenças morfológicas entre o torácico que geralmente são maiores e mais oblíquos do que os cascos dos membros pélvicos.  Quando for selecionar um animal, seja para lazer, competição ou reprodução, uma avaliação da saúde  e capacidade funcional deve ser feita minuciosamente, para analisar se há presença  de alguma afecção no aparelho locomotor.
Estudos de biomecânica da locomoção dos equídeos comprovam que os métodos de casqueamento e ferrageamento, são errôneos e não respeitam as condições anatômicas ideias dos cavalos, mantem as pinças longas e os talões baixos. Isto acontece por falta de conhecimento, treinamento ou por modismo e é prejudicial a vida útil dos vários tecidos que compreendem o sistema locomotor, diminuindo a performance e a vida útil dos equídeos atletas. As estatísticas mostram que, de cada 100 problemas diagnosticados no aparelho locomotor, 80% estão nos membros torácicos e a grande abaixo do joelho. A grande causa é a falta de alinhamento do sistema digital devido ao ângulo do casco menor do que o ângulo da paleta com a horizontal.
Os aprumos refletem o equilíbrio, distribuição de peso e força para cada membro, ocasionando estabilidade ao animal. São proporcionados pelos eixos ósseos e angulações  articulares. Muitos estudos avaliam o equilíbrio geométrico dos cascos nos equídeos em treinamento, maioria deles afirma que o desequilíbrio dos mesmos pode ser responsável pela caudicação (manqueira). Foram registradas nove medidas nos cascos dos membros torácicos: ângulo da pinça, circunferência na banda coronária, comprimento lateral e medial dos talões e quartos comprimento da pinça, comprimento e largura da ranilha. As mensurações permitiram a identificação das seguintes alterações: 87,61% apresentaram talões contraídos, 49,48% desequilíbrio médio-lateral, 23,71% ângulos de cascos contralaterais diferentes e 11,37% tinham o eixo quebrado para trás. A frequência de alterações no casco de cavalos sugere que as práticas de casqueamento e ferrageamento adotadas devem ser revisadas e melhoradas.
O processo deve ter inicio com o animal ainda potro, entre 2 a 3 meses de vida e a manutenção deve ser frequente, a cada 30 ou 40 dias, pois os cascos crescem aproximadamente 0,5 cm por mês. Variações na velocidade do crescimento esta relacionada na vascularização do local, podendo formar linhas ou anéis na horizontal. Potros recém nascidos geralmente possuem cascos pontiagudos, estreitos e flexíveis, o qual cresce em poucos dias permitindo o inicio do desenvolvimento do verdadeiro casco. Um exame e manutenção frequente dos cascos em potros irão auxiliar para seu perfeito desenvolvimento.
Devemos também nos preocupar com a higienização dos cascos, pois com ela prevenimos manifestações de doenças. Alem de fornecer conforto aos animais, ajuda a detectar precocemente eventuais problemas que possam existir. Sempre tomando muito cuidado com a contenção do mesmo, pois, algumas pessoas sentem dificuldade para que o cavalo obedeça os comandos. Esse manejo deve se tornar um habito diário, desse modo o animal vai se acostumando e aceitando cada vez mais essa prática.
Para fazer a limpeza dos cascos deve se tomar algumas medidas para a segurança, onde a contenção é essencial, por isso uma pessoa experiente segurando o animal é extremamente importante. Antes de mexer nos cascos dos equídeos deve primeiramente manter um contato com a parte superior do animal, evitando acidentes envolvendo coices ou outras esteriotipagens. Não se deve deixar objetos como baldes, cestos de lixo ao redor ou até mesmo ficar sentado próximo ao local de  trabalho. É indispensável a paramentação adequada, com calças de tecido grosso e botas. Se o animal estiver incomodado com a presença de insetos é indicado a utilização de repelentes em spray de citronela ou cravo. O material usado geralmente é o limpador de casco podendo ser de metal ou plástico, alguns possuem escova para fazer facilmente a limpeza.
A técnica “segura e empurra” é habitualmente usada onde se empurra a espádua do cavalo deslocando seu peso para o outro membro, podendo assim pegar a mão do animal. Para manipular o membro torácico dos equídeos inicie se posicionando corretamente, ficando em pé ao lado do animal. Quando o cavalo já estiver acostumado, ele logo erguerá a mão. Já no membro pélvico o processo é semelhante ao do torácico, um pouco mais complicado devido a conformação anatômica da região do jarrete. Posicione-se de pé ao lado da garupa na altura da anca do cavalo. Levantando o pé para frente, e depois projetando para trás. É importante ficar próximo ao animal, pois caso ele se altere e tente coicear, provavelmente levara apenas um empurrão.
Tornando esse habito diário, a prevenção de algumas doenças poderão ser prevenidas e consequentemente evitadas, levando em consideração todos os cuidados necessários para manusear o animal.
Dessa maneira iremos melhorar a qualidade de vida e a performance na função que o animal é utilizado.




Cavalo Lusitano - Fruteira EC - Coudelaria Luso Brasileira